A grande festa

O jovem lembrava-se muito bem de como tinha sido a sua primeira saída à noite com os seus amigos. Algo estranho, tendo em conta que a maioria dos adolescentes costumam encontrar no álcool a sua forma de divertimento preferencial quando se vêm afastados dos seus pais. De qualquer forma, ele também não estava lá para se divertir. Fazia parte da organização disfuncional de jovens adolescentes da mesma. O objetivo também era bem típico dos jovens daquela idade: angariar dinheiro para a viajem de finalistas. Todo o panorama era plausível, mas apenas em teoria… O que realmente se viu foi um grupo de adolescentes a trabalharem arduamente na limpeza e montagem do recinto para a realização de uma festa memorável que terminou antes mesmo de ter começado. Quem já foi a algumas, sabe bem como funcionam. No entanto, o jovem passou toda a noite sóbrio, uma fez que ele era o tesoureiro que estava a receber o dinheiro à entrada da festa. Ele apenas foi substituído no seu posto já bem tarde e foi nessa altura que contactou pela primeira vez com estados de embriaguez descomunal. Nessa noite viu de tudo…

Ele simplesmente sorriu para toda aquela panóplia e regressou mais cedo para casa.

No dia seguinte, enquanto arrumava todo o material e limpava o recinto com os seus colegas, ouviu as típicas lamurias do dia anterior: “Eu não me lembro do que fiz na noite passada…”. Também ele teria noites dessas no futuro, mas não naquela altura. No fim, a grande conclusão deu-se com o saldo negativo da festa, mas o que o jovem guardou verdadeiramente de tudo aquilo, foi o trabalho de equipa que envolveu aquela festa e o facto dela ter tornado possível.

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O solitário

Durante muito tempo o jovem tinha-se habituado à solidão. O grande problema é que a maior parte das pessoas via a solidão como um inimigo ou algo de que deveriam ter medo. Quando as pessoas não gostam da solidão, têm também uma tendência para não gostarem de pessoas solitárias, como o jovem, apesar de se tratarem de coisas diferentes. Isto era algo muito contraditório para o jovem, pois quando as pessoas estão na presença de um solitário, elas não estão sozinhas. Ele sabia que não gostava de estar sempre sozinho, uma vez que ninguém gosta de estar isolado (nem mesmo um solitário), mas mesmo assim, gostava da companhia da solidão por vezes. Assim, quando alguém falava com o jovem solitário, normalmente era um bom sinal para ele, uma vez que o próprio se deparava com uma ação diferente das ações da maioria das outras pessoas e, por isso, sentia-se feliz.

Certo dia, o jovem foi convidado para participar numa grande festa onde iriam estar todos os seus amigos e colegas, bem como todas as outras pessoas da cidade.

– Vem connosco! – diziam os seus amigos entusiasmados – Vai ser divertido!

– Não sei… – disse o jovem hesitante – Tenho muita coisa para estudar para o teste da próxima semana…

(Todos sabiam realmente que o que ele gostava era de ficar sozinho, mas as pessoas insistiam em convidá-lo na mesma, pois afinal, a solidão não é saudável para ninguém.)

– Vem lá! – insistiram eles – Não vamos ter outra oportunidade tão cedo.

– Está bem – disse por fim o jovem – Mas eu não me venho embora tarde, porque estou também um pouco cansado.

Assim, prosseguiram todos para a festa e, de facto, ela foi memorável. Foi um dos melhores dias da sua vida. O jovem sentiu finalmente uma euforia que não sentia há muito tempo e, rapidamente tomou gosto a estes momentos. Quando deu por si, já estava rodeado de um grande grupo social e todas as pessoas à sua volta o conheciam, mas… Ele acabou por tornar-se uma pessoa infeliz apesar de toda aquela euforia. Não estava sozinho, mas sentia um certo vazio na sua vida. No fundo, ele sabia que já não era mais aquilo que sempre tinha sido: um solitário. Tinha perdido uma parte de si.

 

Equilíbrio

Há já algum tempo que não vos escrevo e, como bem sabem, a escrita é algo muito importante para mim. Contudo, a razão pela qual vos escrevo hoje é diferente das demais. Durante muito tempo vos falei sobre decisões importantes e mudanças, mas hoje é tempo de falar em estabilidade! Sim, porque pela primeira vez em muito tempo sinto que estou a encontrar algum equilíbrio na minha vida. Depois de muitas tentativas infrutíferas de reestruturação da personalidade, começo aos poucos a respeitar a pessoa que verdadeiramente sou e, com isso, a conseguir encontrar finalmente o meu equilíbrio. Às vezes é necessário passar por períodos difíceis para encontrarmos este equilíbrio e, por muito penoso que seja o processo, aprendemos sempre algo de novo com ele. Tudo isto parece estranho, após um período tão longo de indecisões, mas ao mesmo tempo o resultado é muito recompensador, tendo em simultâneo encontrado uma familiaridade já há muito esquecida.

A minha realidade

Hoje é dia de falar um pouco sobre mim. Não se trata de egocentrismo ou de algo do género, mas sou um defensor de que escrevemos melhor quando falamos de nós, porque todos temos algo de novo para dizer, mas isto já eu vos tinha dito antes.

Muitos de vocês leem o que eu escrevo e nem me conhecem, mas mesmo assim estão sempre lá para me apoiar e, por isso, vos agradeço profundamente. Acontece que me veio alguma nostalgia recentemente, porque descobri que não tenho estado no caminho certo há já algum tempo e, por isso, senti a necessidade de dar uns passos atrás (nada de que me envergonhe). Descobri no me baú das recordações algumas antigas mensagens dos meus amigos que até hoje não esqueci. Eles sempre souberam que eu sou um apaixonado pelas ciências, e as suas mensagens não se esquecem de fazer menção a isso mesmo. Algumas delas são até mesmo exageradas pelo seu conteúdo, pois são coisas do género: “Vê lá se consegues descobrir a cura para a SIDA” ou “Aguardo que ganhes aquele tal Prémio Nobel. Nunca te esqueças de acreditar”. Apesar de serem coisas muito pouco prováveis de acontecer, são estas mensagens que me relembram todos os dias o porquê de ser a pessoa tão curiosa que sou e da minha paixão pelas ciências. Hoje digo-vos infelizmente que ainda não consegui atender a nenhum destes pedidos, mas tenham a certeza que a determinação é a mesma de sempre e foi essa mesma determinação que me ajudou a perceber que não estava no caminho certo. Nestes últimos anos, percebi que por vezes temos de sair da nossa zona de conforto e da realidade que conhecemos para percebermos melhor algumas questões de outros prismas e são essas mesmas decisões que muitas vezes nos dão as certezas que temos nos dias de hoje.

Os significados da vida

Talvez algum dia venha a saber o porquê de a minha vida ter mudado tanto nos últimos meses. Ou então, talvez nunca chegue realmente a sabê-lo com toda a certeza. E vocês, sabem o que estão a fazer? Já pararam um momento para pensar no porquê de serem quem são? Quiçá nunca pensaram verdadeiramente nisso… Todos os dias pensamos naquilo que podemos fazer para sermos felizes ou em como podemos tirar melhor partido do mundo à nossa volta, mas não será que o estamos a fazer de forma errada? Não faz sentido pensar no bem comum, se não somos capazes de pensar naquilo que queremos para nós mesmos. Não o devemos confundir com egoísmo, mas é importante que estejamos seguros daquilo que verdadeiramente queremos, pois isso é parte de quem somos. Os grandes grupos são compostos de grandes individualidades, porque são todas essas individualidades que os tornam grandes.

E agora, já pensaram no porquê de serem quem são? Se a resposta for afirmativa, então estão no bom caminho, mas não se esqueçam de repetir todos os dias essa questão a vocês mesmos, porque as conclusões a que chegarem hoje, podem não ser as mesmas de amanhã. Se, por outro lado, a vossa resposta for negativa, então talvez esteja na hora de começarem a pensar por vocês.

Alternativas?

“Como posso eu saber se estou a fazer a coisa certa?”; A resposta a esta questão é: “Não sei!”. Isto foi algo que demorei algum tempo a descobrir. Quando planeamos as nossas vidas ao mais ínfimo detalhe, tendemos a esquecer-nos que há coisas que não dependem unicamente de nós. Talvez por isso tenham criado o plano B em alternativa ao plano A. E se o plano B falhar também? Plano C? Acho que são demasiados planos para definir… Temos de começar a pensar de forma diferente. Por isso, só comecei a definir alternativas quando o plano inicial falha. A verdade é que a primeira alternativa é quase sempre a melhor. De pouco me serve pensar demasiado à frente, se é um cenário que pode nunca chegar a acontecer. É também por isso que a espontaneidade é muito valorizada. Ser espontâneo não se trata de algo certo ou errado. Já pensaram que os nossos planos podem ser pouco realistas ou que pode não haver tempo suficiente para os colocar em prática.

Será que o futuro é assim tão importante?

Um novo rumo a seguir

Ultimamente as pessoas têm uma tendência para se preocuparem demasiado com o que fazemos e, por isso, sentimos muitas vezes a necessidade de agradarmos os demais. O que não é correto, pois devemos viver a nossa vida e não a que os outros querem que tenhamos. Assim, perdemo-nos quase sempre em coisas que pouca ou nenhuma importância têm para nós, quando na realidade devemos procurar ser felizes. Quando nos focamos em demasiadas coisas, o sucesso é inevitavelmente inatingível, pois devíamos estar a fazer aquilo em que realmente somos bons e uma boa parte da felicidade das nossas vidas resulta disso mesmo. Dito desta forma até parece fácil, mas bem sabemos que a realidade não o é e a vida faz-nos perceber isso de muitas formas diferentes. No entanto, nunca é tarde para seguirmos novos rumos e experimentarmos novas coisas, pois só fazendo isso é que podemos saber como nos sentimos realizados.

Como deve ser a vida?

Como deve ser a vida? Esta é talvez a questão mais comum na mente das pessoas por todo o mundo. Algumas dirão que as suas vidas são entediantes, enquanto outras vos dirão que necessitam de um pouco de tédio para fugir aos seus problemas. Há quem esteja desesperado por arranjar um emprego, enquanto alguém no outro lado do mundo desespera por sair de uma zona de guerra. As nossas condições podem ser diferentes, mas o nosso objetivo é o mesmo. Procuramos a nossa paz de alguma forma, mas nunca a iremos obter, porque não podemos fugir daquilo que somos. Pessoas… Seres insatisfeitos por natureza que estão já à partida condenados ao que verdadeiramente são. Por isso, sempre que perguntem a alguém: “Como deve ser a vida?”; a resposta mais provável será: “Pedia ser melhor…”.

Frustração

Cada vez acredito mais que vivemos num mundo de pessoas frustradas. Isto porque, quando olhamos à nossa volta vemos pessoas a queixarem-se de falta de tempo para fazerem as coisas. Acredito que isso possa acontecer na maioria dos casos por duas razões: as pessoas têm demasiadas atividades desnecessárias nas suas vidas ou estão a gastar o seu precioso tempo com coisas que não têm importância. Contudo, esta questão não passa de diferentes perspetivas. Para quem é que tem importância? A resposta imediata seria certamente: para nós; mas a maioria das pessoas não pensa assim. Como resultado, vemos pessoas que não conseguem desenvolver ao máximo o seu potencial e, por isso se sentem frustradas. Devemos ver esta questão da nossa perspetiva, pois afinal, ainda somos donos das nossas vidas. Ninguém gosta de se sentir frustrado. Se isso acontece, normalmente significa que algo nas nossas vidas não está bem. Por isso, da próxima vez que sentirmos frustração, devemos perguntar-nos: o que posso eu fazer em relação a isso?

[10] – A mensagem final

Olá amigos!

 

Sim, esta carta tem mesmo vários destinatários. Já irão perceber o porquê.

Há momentos especiais nas nossas vidas e pessoas com quem esses momentos merecem ser partilhados. Este é um deles. Todos eles contribuíram um pouco para melhorar a pessoa que sou hoje e essa é uma das mensagens que vos quero transmitir. Quero deixar-vos o meu grande agradecimento por me apoiarem sempre. Ainda há certamente a considerar as pessoas que por alguma razão se acham superiores de alguma forma. Não se preocupem, porque também vos quero deixar uma mensagem. Aprendi algumas coisas com vocês também, nomeadamente a não me tornar na péssima pessoa que vocês são. Mas não se sintam ofendidos, porque afinal ninguém é perfeito…

Com tudo isto, quero agradecer-vos a todos pois sem a vossa contribuição não me seria possível escrever esta série de cartas extraviadas. Espero que algumas tenham finalmente chegado aos seus destinos e, mesmo que isso não tenha acontecido, pelo menos serviram para dar-vos a conhecer um pouco de mim.

 

Do vosso amigo