A questão do livre-arbítrio

Uma coisa que me faz alguma confusão é o facto de muitas vezes a vida nos trocar as voltas. Durante todas as nossas vidas somos levados a tomar decisões. Umas são fáceis e outras são difíceis, mas a simples tomada de decisão já pressupõe que tenhamos no mínimo duas hipóteses de escolha. No entanto, a cada segundo que passa estamos a envelhecer e, por isso a ficar mais experientes. Desta forma, seria expectável que as decisões que temos de tomar se tornem progressivamente mais fáceis de tomar com o passar do tempo, mas nós sabemos que isto não funciona assim. Muitas vezes é precisamente o inverso. Quando somos crianças, as decisões a tomar são mais fáceis e muitas vezes o impossível não existe. Sou então levado a concluir que a dificuldade das tomadas de decisão é inversamente proporcional à experiência adquirida. Quando envelhecemos já experienciámos mais situações e o nosso conhecimento aumenta. Descobrem-se novas opções e abrem-se novas portas e é por isso que é progressivamente mais difícil tomar uma decisão. Porém, como muitas outras coisas, isto não funciona assim de uma forma tão linear. Muita da nossa experiência que nos permite tomar decisões advém do meio onde nascemos, crescemos e vivemos. A nossa família, os nossos amigos e todas as pessoas que conhecemos influenciam de alguma forma a maneira como pensamos e vemos o mundo. Basta olharmos um pouco para a nossa sociedade para percebermos como as influências funcionam. Temos sociedades extremamente fechadas, que não conhecem outras realidades e o mesmo se aplica à religião. A maioria da nossa população é cristã, mas a maior parte dela, nem sabe o verdadeiro significado de ser cristão porque está sob uma influência do meio onde se insere. Depois, temos também outra questão importante a abordar neste tópico. A genética. Todos nós temos uma forma única e singular de olhar para o mundo e interagir com ele e a culpa disso é do conjunto específico dos genes que herdámos dos nossos pais. Se formos baixos, não podemos fazer todas as atividades que uma pessoa alta faz, da mesma forma que se formos gordos, não faremos tudo o que uma pessoa magra faz. Algumas doenças genéticas também trazem limitações que influenciam a interação com o mundo. Assim, dependendo do meio-ambiente em que estamos inseridos e do nosso conjunto específico de genes, é-nos aberto um leque mais ou menos vasto de opções e é por esta razão que nem sempre podemos falar em igualdade de oportunidades. Vivemos num mundo repleto de desigualdades. Não temos culpa do conjunto de genes com que nascemos, nem do meio onde nascemos. Será então mesmo legítimo falarmos em liberdade de escolha? Deixo esta questão no ar.

Até à próxima publicação!

 

P. S. – Quero pedir desculpa por não ter escrito mais textos recentemente, mas tenho andado mesmo ocupado e acredito que mais vale escrever algo com qualidade, do que um simples conjunto de palavras que não traduzam um pouco de reflexão. A partir de agora prometo ser mais breve a escrever novos textos.