As guerras que não podemos vencer

Num mundo repleto de batalhas que travamos todos os dias, vivenciamos aquilo a que muitas vezes chamamos de tristeza. Ficamos frustrados e cheios de stress derivado das nossas vidas exigentes. Trabalhamos todos os dias para sermos melhores pessoas e darmos um pouco de nós aos outros, acabando por vezes a fingir ser pessoas que não somos. Mas também sabemos que no fundo não podemos agradar toda a gente… Ninguém disse que as batalhas que travamos todos os dias são fáceis, no entanto haverá sempre pessoas a dizer-nos que não as podemos vencer. Essas serão também as pessoas que provavelmente nem saberão de metade sequer das vossas vidas. Às vezes perguntamo-nos se não serão essas pessoas que usam máscaras e não sabem. Sim, porque nem todas as máscaras estão à vista dos olhos. E depois ainda há aquelas pessoas que querem criar guerras a usar máscaras de vidro. Oxalá fôssemos todos transparentes como a água… Depois temos também os nossos amigos que nos advertem do perigo e das batalhas que realmente são importantes para nós. Avisam-nos que os caminhos que percorremos não são fáceis, mas que com trabalho e esforço tudo se consegue. São os nossos anjos da guarda que nos dizem: “Para, pensa e faz alguma coisa!”. Geralmente os seus conselhos são bons porque nos dão uma perspetiva externa da realidade. O verdadeiro problema ocorre quando todos nos dizem para nos afastarmos do perigo, porque estamos perante uma batalha que não conseguimos vencer, mas talvez atirarmo-nos de cabeça seja a nossa tábua de salvação e ainda vaiamos a tempo de vencer a guerra. É por isso que os objetivos na vida têm de ser modestos para podermos chegar longe e atingirmos grandes objetivos, senão iremos cair no erro das máscaras invisíveis e entrar em guerras que não podemos vencer!

Mensagem de Natal

E como este blog não serve apenas para contar histórias com finais reflexivos, quero aproveitar para falar um pouco desta quadra tão importante que se repete todos os anos. Por volta desta altura já vimos todos os inúmeros anúncios televisivos que incentivam ao consumismo e já todos corremos às lojas para comprarmos aqueles presentes de Natal que tínhamos adiado à tanto tempo e certamente iremos distribuir depois da meia-noite…

Mas não é por estes motivos que o Natal é uma época especial para mim. As minhas recordações desta data remontam sempre àqueles cheiros maravilhosos dos sonhos e rabanadas da casa das minhas avós, do quentinho da lareira de casa e da companhia da minha família à volta da mesa a comermos aquelas magníficas iguarias desta época. Lembro-me muito bem das tardes do dia 24 passadas a cozinhar e a fazer biscoitos, enquanto as crianças correm pela casa e desarrumam toda a arquitetura da mesa que já estava a começar a ser posta. Aqueles momentos tão bons em família que queremos que durem para sempre… Sei que sou um sortudo por ainda conseguir reunir a minha família todos os anos à volta da mesma mesa e tenho pena de todas as pessoas que não têm esta mesma oportunidade porque a vida não o permitiu.

Assim, espero que quando lerem esta mensagem, estejam também sentados à mesa com as vossas famílias e amigos e, mesmo que não tenham muito que comer ou muitos presentes para abrir lembrem-se que sem todas essas magníficas pessoas que vos rodeiam neste momento, nada disso seria possível. Sintam-se sempre gratos, pois nunca saberão se irão ter outro momento como este e lembrem-se sempre que o mais importante são as pessoas que vos rodeiam.

Esta é a minha mensagem de Natal para este ano…

P. S. – Como não poderia deixar de ser, quero também desejar um Feliz Natal a todos os profissionais de saúde de serviço que deixaram esta noite as suas famílias para ajudar todas as pessoas e famílias em situações difícil de doença. Vocês são os verdadeiros heróis deste Natal!

A rapariga misteriosa – Parte 5 (final)

Já se havia passado um mês desde que a rapariga misteriosa se tinha mudado e o rapaz nunca conseguiu ter oportunidade de a conhecer melhor. Até ao presente dia ainda não sabia o porquê de tanto fascínio. Continuava todos os dias a passar por aquele café onde a tinha visto pela primeira vez, na esperança de a voltar a ver mais algum dia. Tal ainda não tinha acontecido. Estava agora na altura de se preparar para mais um teste de matemática e sabia que se tinha de focar para recuperar a sua nota e ainda ter esperanças em conseguir uma média razoável no final do ano. Começou por insistir em ficar em casa para se poder concentrar no estudo, mas prontamente viu que em nada isso o ajudava e, por isso, dirigiu-se mais uma vez ao café. Pediu o lanche e deu início à sua longa tarde de estudo. Não conseguia conter-se em olhar para a mesa do fundo onde a tinha visto pela primeira vez. Se tivesse sabido que ela se ia embora, talvez as coisas tivessem sido diferentes…

O café começava agora a encher, mas a mesa do fundo permanecia vazia. O seu lanche tardava em chegar e, como se isso não bastasse, também já não conseguia estudar em lado nenhum. Quando a comida chegou, alimentou-se rapidamente para se dirigir a casa. Preparava-se para levantar quando a viu novamente! Lá estava ela outra vez: a rapariga misteriosa!. No entanto, este encontro não correu como o esperado, pois ela percorreu todo o café, sentando-se novamente na mesa do fundo, sem lhe dirigir uma única palavra. O rapaz, frustrado levantou-se e dirigiu-se à mesa da rapariga.

– Esperei um mês pelo teu regresso e agora que chegaste não me dizes nada? – perguntou o rapaz tentando manter uma voz calma. – Não tive qualquer notícia tua!

A rapariga fitou-o, com surpresa e disse:

– Não sei do que falas… Se bem me lembro foste tu que fugiste da primeira vez que nos vimos.

O rapaz ficou confuso. Como era possível tudo isto depois de terem sido colegas de carteira na escola. Era impossível ela não se lembrar. Até lhe tinha deixado uma nota escrita no caderno.

– Vais mesmo fingir que não te lembras de todas as aulas em que estávamos sentados ao pé um do outro durante aquelas semanas? – perguntou o rapaz com uma voz irritada – Não acredito nisto…

A rapariga ficou estática e sorriu apenas. Apesar de ter durado apenas um segundo, aquele momento pareceu uma verdadeira eternidade para ambos. Antes que o rapaz pudesse fazer mais uma pergunta, a rapariga fez um gesto para o mandar calar e disse:

– Tem calma, senta-te e vamos tomar um café! Não precisas de te preocupar mais. Finalmente vou ter o prazer de conhecer o rapaz misterioso de que a minha irmã tanto me falava.

A rapariga misteriosa – Parte 4

Finalmente tinha passado aquele teste de matemática e diga-se de passagem que não foi das melhores prestações do rapaz. Era já fim-de-semana e a inquietação dos últimos dias ainda não tinha passado. Não pelo teste que tinha corrido mal, mas sim pelo facto de a sua colega de carteira ter faltado a esse mesmo teste e não ter aparecido nas aulas durante toda a restante semana. Não sabia o porquê de aquela rapariga o ter fascinado desde aquele primeiro encontro no café, mas a verdade é que nunca tinha deixado de pensar nela desde então. A sua presença deixara-lhe sempre inquietação e nunca sabia muito bem como iniciar uma conversa com a rapariga. Começava a pensar que ela talvez tivesse deixado de ir às aulas por causa da sua discussão no outro dia no centro de saúde. No fundo ele sabia que isso não fazia sentido nenhum, mas são aquelas suposições parvas que todos os adolescentes fazem. Tinham-se passado duas semanas desde que se conheceram e ele ainda não sabia nada sobre ela. Estava na altura de a conhecer melhor, mas ela tinha desaparecido simplesmente. Decidiu que no dia seguinte iria falar com o professor para saber se ele sabia algo sobre esta ausência prolongada.

Chegou a segunda-feira e o rapaz dirigiu-se ao gabinete do professor. Após perguntar pelas notas do teste (uma típica desculpa, para iniciar a pergunta importante), o rapaz questionou-o:

– Sabe alguma coisa sobre a ausência prolongada da minha colega? Ela está doente?

– Fica descansado, porque está tudo bem com ela. Mas se quiseres mais informações terás de lhe perguntar diretamente. – disse o professor – Ela disse-me que provavelmente chegaria o dia em que me perguntarias por ela. Parece que acertou…

– Obrigado professor. – respondeu o rapaz – fico descansado em saber que está tudo bem com ela.

– Já agora! Aviso-o que o seu teste não me parece muito famoso. – advertiu o professor – Não sei o que anda pela sua cabeça.

– Prometo que me empenharei mais para a próxima professor. – disse o rapaz – Este teste foi a exceção à regra.

Assim saiu o rapaz do gabinete, cada vez mais a pensar que ele poderia ser o culpado desta ausência. Dirigiu-se a casa frustrado após o longo dia de aulas. Sentia necessidade de falar com a rapariga, mas nem o seu contacto teve coragem de pedir nestas semanas. Com o nervosismo até se esqueceu de perguntar ao professor se ela voltaria. Poderia nunca mais a voltar a ver… No fundo, não havia mais nada que pudesse fazer, por isso, refugiou-se nos trabalhos de casa.

Ao virar a página do seu caderno fez então uma descoberta. Estava um texto escrito no verso da folha.

“Sabia que eventualmente chegarias a esta página. Desculpa não te ter dito nada antes, mas a verdade é que não tive coragem para o fazer. A minha mãe arranjou emprego na Suiça e eu fui morar com ela para lá. Gostava de ter podido conviver mais tempo contigo e talvez a nosso história tivesse sido diferente. Continuarei a vir a Portugal nas férias, por isso talvez nos possamos cruzar novamente algum dia. Desejo-te tudo de bom. Beijinhos”

A oportunidade do rapaz conhecer melhor a rapariga misteriosa tinha passado e agora não saberia se a voltaria a ver algum dia. Nem o facto de saber que a sua ausência nada tinha a ver com ele o consolava. Rasgou a folha do caderno e amarrotou-a com violência, atirando-a para o lixo. Afinal de contas ele nem era dado a muitos afetos.

A rapariga misteriosa – Parte 3

Correrias, tempos de espera intermináveis e a senhora da padaria da vila a pedir o livro de reclamações. Assim se encontrava o centro de saúde, como já vinha a ser habito. Já haviam passado três horas desde que os dois jovens tinham chegado e a sala de espera começava a encher cada vez mais. Durante essas três horas, pelo menos duas tinham sido de absoluto silêncio entre eles, até que por fim, o rapaz decidiu quebrá-lo:

– Porque é que te propuseste a vir comigo? – perguntou ele – A aula de hoje era de revisões para o teste de amanhã e assim vais prejudicar-te na tua nota.

– Não te preocupes com isso. – respondeu-lhe ela – Eu estou preparada! E afinal de contas não estavas propriamente em condições de vires sozinho.

– Porque te preocupas tanto comigo? – perguntou o rapaz num tom acusatório – No outro dia viste-me sozinho na aula e apesar de existirem tantos outros lugares disponíveis sentaste-te ao pé de mim. Hoje foste a única pessoa que me veio ajudar para além do professor. Porquê?

A rapariga permaneceu em silêncio, cruzando os braços e mexendo nervosamente os dedos das mãos. As perguntas deixavam-na nervosa, mas o rapaz, sem o perceber, bombardeou-a novamente com mais perguntas:

– Porque vieste para esta pequena vila agora a meio do ano letivo? Porquê?

O nervosismo passava cada vez a tornar-se mais intenso. Os pequenos movimentos da mão tornaram-se tremores e agora eram visíveis para o rapaz.

– Desculpa! – Apressou-se ele a dizer – Não queria deixar-te assim. Eu não sou propriamente uma pessoa dada às relações…

A rapariga manteve o silêncio. O rapaz respeitou-o e assim se passou mais uma hora até ele ser chamado pelo médico. Quando regressou após o profissional de saúde lhe ter dito que tudo aquilo não iria passar de um sobrolho inchado e dorido nos próximos dias, o rapaz suspirou com algum alívio, apesar de agora já se apresentar com dores.

– Fico contente em saber que não passou tudo de um susto. – disse a rapariga – Perguntaste-me antes porque me tenho preocupado tanto contigo nestes dias. Bem, a verdade é que me pareces muito distanciado de todas as outras pessoas e isso não é saudável.

Agora foi o rapaz que ficou sem resposta e começava a ficar desconfortável.

– Pela forma como te comportas, precisas mesmo do apoio de alguém na tua vida. – disse a rapariga – Eu é que infelizmente já não serei mais esse apoio…

O rapaz ficou perplexo com esta afirmação e o seu nervosismo continuava a aumentar.

– Está a fazer-se tarde e a minha mãe está lá fora à minha espera. – prosseguiu a rapariga, já a dirigir-se para a saída – Estuda para o teste de amanhã e descansa que bem precisas.

Antes que o rapaz tivesse tempo de dizer mais alguma coisa a rapariga correu para o exterior. O bonito dia de sol tinha desaparecido e agora chovia torrencialmente. Apenas teve tempo de a ver entrar no carro e partir. Mal sabia ele que após aquela tempestade, certamente não viria a bonança.

A rapariga misteriosa – Parte 2

Hoje era dia de melhorar tempos na aula de educação física. Só os alunos com os melhores tempos seriam escolhidos para representar as suas turmas na grande prova de final de período. O jovem estava entusiasmado e sabia que tinha muito boas hipóteses para conseguir um desses tão desejados lugares. No campo de treinos do lado as raparigas faziam já os alongamentos após a sua prova.

– Coloquem-se na linha de partida – disse o professor – Estamos quase a começar!

O rapaz estava pronto. Era agora! Todo o trabalho de condição física realizado durante meses daria ali os seus frutos com o tão aguardado apuramento para a prova final. Fez-se silêncio e os batimentos cardíacos do jovem começavam a acelerar cada vez mais. Soou o tiro de partida. Ele colocou-se na retaguarda do grupo como gostava habitualmente de fazer de forma a preparar-se para o sprint final na última volta. Assim evitava também os típicos encostos de ombro e uma possível queda. Sejamos sinceros… Nenhum rapaz daquela idade quereria passar tal vergonha em frente a um grupo de raparigas que agora assistiam entusiasmadas ao final da corrida. Era tempo de os rapazes entrarem para a última volta. O ritmo aumentou imenso, até ao ponto de se tornar frenético. O jovem começou então a ultrapassar os outros pelo corredor exterior, até chegar aos primeiros lugares e foi então que a viu… A rapariga misteriosa! Corria junto às outras raparigas até à meta para coroarem o tão aguardado vencedor. Foi aí que tudo à volta do rapaz se apagou. Caiu estatelado no chão após uma bola ter atingido a sua face do nada. Ali permaneceu estendido, pois sabia que já era tarde de mais. Os restantes colegas continuaram a correr lutando pela supremacia na prova, enquanto ele ficou ali simplesmente deitado e humilhado pela vergonha. Os rapazes que jogavam futebol ali perto já haviam desertado, como expectável, sem se certificarem de que o jovem se encontrava bem. Apenas duas almas caridosas o vieram prontamente socorrer. A jovem enigmática e o professora aproximaram-se.

– Então jovem? – perguntou o professor preocupado – Estás bem?

– Sim. – respondeu o jovem aparentemente bem – Não me dói nada.

– Acho que devias ir ao médico. Foi uma queda aparatosa e o teu sobrolho está a começar a ficar inchado – disse a jovem – Se quiseres eu acompanho-te ao centro de saúde só para garantir que está tudo bem.

Sem saber muito bem porquê, o jovem aceitou o convite. Mas afinal de contas ele sentia-se bem. Porque iria ele ao médico? A única ferida que tinha era no seu orgulho por  não ter tido oportunidade de ganhar aquela corrida. E isso, não havia ninguém que curasse…

A rapariga misteriosa – Parte 1

Estava um jovem sentado na esplanada do café, mais uma vez a ler e a reler os seus apontamentos enquanto estudava para o seu próximo teste de matemática que se iria realizar na semana seguinte, quando entra uma jovem. Esta jovem chamou imenso a atenção do rapaz, até porque ele nunca a tinha visto por aquele local, nem na escola. Ela percorreu todo o café e sentou-se na última mesa do fundo, esperou pela empregada de mesa e pediu um café. Sem saber muito bem o porquê, o rapaz deu-se conta de que a estava a observar à dez minutos. Dez minutos do seu limitado tempo de estudo! Posto isto, decidiu continuar o seu trabalho, mas a concentração começava a tornar-se difícil, ao ponto de ficar a olhar 30 minutos para a mesma página. Aquela situação estava a deixá-lo extremamente nervoso e angustiado e ele não sabia bem o porquê. Decidiu então acabar à pressa o resto do seu lanche e arrumou as suas coisas para se dirigir a casa. Foi pagar a sua conta  e decidiu olhar uma última vez para a misteriosa rapariga, mas ela já não estava lá… Apenas a sua mala. Quando deu costas à empregada após o pagamento, o seu olhar encontrou-se com o da rapariga misteriosa, que se encontrava agora diante dele. Muito atrapalhado, o jovem prosseguiu apressadamente para a porta de saída, sempre a pensar: “Quem é esta rapariga?”

No dia seguinte a sala de aula estava agitada, como sempre. Estavam alguns rapazes a atirar papeis nas traseiras da sala. Algumas raparigas conversavam e o jovem estava no meio da confusão a tentar concentrar-se, na resolução dos exercícios de matemática, quando inesperadamente a porta da sala de aula se abre:

– Bom dia professor – disse uma voz muito familiar (apesar do jovem nunca a ter ouvido antes) – Desculpe o atraso.

– Apresento-vos a vossa nova colega de turma – disse o professor com entusiasmo. – Terão certamente oportunidade de a conhecer melhor nestes dias.

A rapariga misteriosa do dia anterior avançou e estava cada vez mais próxima do jovem rapaz. Os batimentos cardíacos do jovem começaram a aumentar até que a doce voz da rapariga lhe perguntou:

– Posso sentar-me ao pé de ti?