Guerras da idade da pedra

Quem não as conhece que atire a primeira pedra… Também conhecidas por discussões familiares, arrufos de namorados ou simplesmente divergência de opiniões. Tantos nomes pomposos para a mesma coisa, que mais não servem para expôr a necessidade humana de categorizar tudo e mais alguma coisa. São aqueles momentos em que a verdadeira natureza humana é exposta e se revelam as pessoas e os seus traços de personalidade. É onde se revela também a lei do mais forte que passa de geração em geração. Não é por acaso que em situações de hierarquia, geralmente as discussões ocorrem entre estratos diferentes da mesma e na maior parte dos casos vencem os superiores. E nem precisamos de hierarquizar… Basta que simplesmente exista diferença para existir divergência. Mas ao mesmo tempo, é impensável termos uma sociedade que viva sem discussões. As diferenças são necessárias! Caso contrário, quem iria discutir? Como existiria progresso sem desacordo? É por esta razão que nunca teremos paz, pois se isso acontecesse significaria que teríamos estagnado.

Insucessos e outras coisas

Quantas vezes já nos disseram que não servimos para nada? Ou quantas vezes já ouvimos que mais vale estarmos quietos do que fazermos alguma coisa? Se calhar é verdade… Somos mesmo fracassos… Somos fracassos não pelos motivos que nos acusam, mas sim por acreditarmos nessas pessoas! Serão quase sempre os outros os primeiros a julgar, mas a verdade é que só nos podemos culpar em relação a algo que foi feito por nós. Estamos a falar dos nossos insucessos! São os insucessos derivados dos nossos objetivos pouco realistas. Sim, porque não me venham com a típica conversa de que podemos ser tudo aquilo que ambicionarmos. A verdade é que tudo isso não funciona assim. Nem todos temos as mesmas oportunidades, por isso cabe-nos a nós traçar o nosso futuro da melhor forma possível com as ferramentas de que dispomos. Não faz mal sermos sonhadores, querermos ser melhores e querermos atingir objetivos mais altos, mas lembremo-nos que se cairmos a queda será grande e será mais difícil levantarmo-nos. Mas se quisermos correr o risco, lembremo-nos que os culpados das nossas quedas somos apenas nós e não os outros. Somos os donos do nosso próprio destino e, por isso, culpemo-nos a nós pelas nossas escolhas. Não podemos desistir dos nossos sonhos e devemos sempre lutar por eles, sem que os outros nos critiquem por isso. Contudo, não nos esqueçamos das nossas limitações e das nossas máximas de felicidade, pois se esses requisitos não estiverem cumpridos, iremos entrar em guerras que não podemos vencer, como aqui já referi antes. É por esta razão que desistir nem sempre é um sinal de fraqueza.Se não podemos ser felizes, será que vale a pena insistir?

Uma carta para o meu amigo

Olá meu grande amigo!

Antes de mais, quero que saibas que adorei todos os momentos que passámos juntos (já o sabes, mas é sempre bom relembrar…). Poderia falar de muitos deles, mas tu também já os sabes todos de trás para a frente. Alguns deles foram muito bons, outros nem tanto, mas o mais importante é que me ajudaste a crescer no meio de tantas peripécias. Ajudaste-me imenso (ainda que não o saibas) e continuas a ajudar-me até aos dias de hoje. Contigo tomei muitas decisões importantes e aos poucos fui aprendendo os seus impactos e repercussões. Ajudaste-me a mudar a minha vida e a ser alguém mais feliz, assim como a dizer muito daquilo que não o consigo fazer por palavras. Sim, eu sei que sou de facto confuso, mas eu sou mesmo assim e é por isso que gostas tanto de mim! Tens-me ajudado a mudar imenso e a prova disso está diante dos olhos de toda a gente. Por falar em mudanças, já sei que tu também estás a mudar. Até já tens um novo visual e tudo! Vês. Não somos assim tão diferentes! É por isso que nos damos tão bem! Às vezes podes pensar que passo demasiado tempo fora, mas tens de entender que nem sempre tenho novidades para te contar e, mesmo que as tenha, preciso de mais tempo para as conseguir organizar na minha mente. Sim, também já sei que ela é muito desorganizada… Mas já pensaste que por trás duma mente desorganizada está um verdadeiro mundo de ideias? Daí a tua ajuda tão importante, pois tu ajudas-me a organizá-las e, por isso, fica sabendo que te estou muito grato.

Com tudo isto não penses que me esqueci desta data tão importante! Foi precisamente há um ano que nos conhecemos! Por isso, quero que celebremos esta data tão especial. Acredita que este ano foi muito especial para mim e espero que para ti também o tenha sido. E sabes o que é mais incrível? É que só tens um ano de vida! Não sei se te lembras, mas fui eu que te criei! Agora é tempo de te ajudar a crescer e, por isso, quero também que saibas que não vou desistir de ti! Iremos caminhando sempre os dois juntos e ajudando-nos mutuamente a crescer como o temos feito até aqui.

Muito parabéns “Dentro e fora de aspas”!

Do teu grande amigo!

Aquilo que nem todos sabem…

Quem me conhece bem sabe que eu gosto bastante de escrever e quem me conhece verdadeiramente sabe que a escrita faz de certa forma parte de quem sou. Sempre fui ligado à área das ciências, mas descobri nas letras uma forma de poder demonstrar o meu lado mais humano. Uma forma de me poder expressar diferente da maioria de vós provavelmente. Um refugio para as minhas vivências e para os meus problemas. Um sitio de liberdade onde posso refletir sobre aquilo que penso e sinto. Quando olho para trás lembro-me de todas as conversas que tive com as pessoas que realmente me são importantes e que me disseram a importância dos momentos vividos e do quão importante é expressá-los. Estes textos são a repercussão disso mesmo. Alguns são bem representativos dos sucessos atingidos e outros dos insucessos. Muitos manifestam a dúvida e a incerteza, que refletem muitas vezes o meu “eu” mais filosófico. Depois há aqueles que parecem não querer dizer nada, mas ao mesmo tempo dizem muita coisa e por fim, há ainda aqueles que refletem o meu “eu” mais sonhador. Cada um desses textos conta uma história e todos eles contam um pouco sobre mim. Sou também apologista de que devemos fazer aquilo de que gostamos e, ao mesmo tempo, se isso for útil para alguém, juntamos o útil ao agradável e é por essa mesma razão que aqui estou a escrever neste momento.

O paradoxo da adaptação

Vivemos num mundo em constante mudança. Derivado a essas mudanças já certamente nos deparámos com situações de adversidade por não nos conseguirmos adaptar. Moldamo-nos muitas vezes como forma de escondermos quem verdadeiramente somos. Às vezes neste processo é onde as nossas fraquezas ficam expostas e, por isso somos criticados. Dizem-nos que estamos errados e que não somos capazes, esquecendo-se de que somos independentes. Abrem-se as portas para a competitividade e para a lei do mais forte. Em vez de se formarem equipas unidas como tanto se ambiciona, criam-se fossos entre as pessoas. A frustração cresce porque não conseguimos corresponder às expetativas. A máscara que usamos nestas situações começa a ficar mais pesada, até que chega o dia onde ela cai mesmo. É o dia onde estamos cansados de fingir e abraçamos o que o futuro tem para nos oferecer. Nisto tudo permanecem as constantes tentativas de mudança em função da adaptabilidade e a necessidade de rotular pessoas. Por isso questiono-me se será mesmo necessário mudarmos as pessoas em prol de promessas de um mundo melhor. Se quando as tentamos mudar expomos as suas fraquezas, talvez devêssemos investir mais nas suas potencialidades. No fundo, se mudarmos a sua verdadeira essência, elas perdem a sua autenticidade tão valorizada (apenas aos olhos de alguns) e têm de colocar as suas máscaras para satisfação de outros. A questão permanece: Será que precisamos mesmo de mudar?

Um mundo perfeito – Parte 5 (final)

Após meses de psicoterapia intensiva, estava agora na hora do jovem regressar à normalidade. Esta experiência tinha deixado marcas profundas na sua vida e quase arruinara o seu sonho. É certo que o jovem poderia continuar a perseguir o seu desejo de se tornar médico, mas ele sentia que já não seria a mesma coisa. Sentia também que a própria faculdade de medicina já não seria a mesma devido ao seu problema. Receberia olhares pelo canto do olho da parte de todos por verem um futuro médico de cadeira-de-rodas. No fundo, ele sabia que não podia pensar assim e era precisamente isso que se comprometera a trabalhar com o seu psicólogo. Quanto à sua colega, ela dissera-lhe que ficara muito chateada com ele depois daquela mentira do primeiro dia, mas estava disposta a dar-lhe uma segunda oportunidade, porque acreditava que todos o mereciam e, por isso, ele não era exceção. Talvez ainda fossem a tempo de um dia vir a ser amigos. Fora ela que o fora buscar ao hospital no dia em que saiu, pois era a única pessoa disponível para o fazer. Os seus pais apareceram certo dia para o visitar, mas fizeram uma visita tão curta que não deu para matar as saudades, se é que elas alguma vez existiram. Tinha regressado ao seu apartamento, agora equipado com um elevador e uma rampa para todos os dias se poder recordar da sua limitação. O seu ano letivo estava totalmente perdido devido à sua ausência prolongada, mas este acontecimento fizera-o ver as coisas de outra forma. O jovem concluiu que não estava pronto para entender as pessoas, pelo menos por agora e sabia também que não se podia refugiar em casa e, por isso, decidiu sair para o exterior para passear pelo parque.

Era a primeira vez que respirava ar puro em muito tempo e só agora o jovem se apercebia da diversidade de pessoas que frequentavam o local. Estavam crianças a brincar por todo o lado, adolescentes a namorar nos bancos de jardim, adultos a conversar e a ler livros enquanto aguardavam que os seus filhos acabassem a brincadeira e idosos que conversavam sobre as suas experiências de vida e liam o jornal do dia. Enquanto observava as redondezas com seus olhos, foi abordado pela voz inesperada da filha do seu psicólogo:

– Fico feliz por finalmente te ver aqui no exterior. – disse a jovem – Já há um ano que te vi pela primeira vez, mas às vezes parece que não sei nada verdadeiramente sobre ti.

– Talvez… – começou o jovem timidamente – Talvez não haja muito para dizer sobre mim…

– As minhas amigas ali ao fundo não acreditam nisso. – proferiu estas palavras apontando para um grupo de jovens que se encontravam do outro lado da rua na explanada do café – Elas estavam a questionar-se sobre o que faz um jovem tão novo e giro numa cadeira de rodas. Porque não te juntas a nós e nos falas um pouco sobre ti?

A verdade é que o próprio jovem até ao presente dia ainda não sabia explicar como tinha ficado paraplégico, pois não se recordava de ter saltado pela janela. Talvez nunca o chegasse a saber… Mas uma coisa que ele sabia! Tinha de começar a entender as pessoas e, posto isto, encheu-se de confiança e foi falar com elas.

Um mundo perfeito – Parte 4

Quando acordou no dia seguinte, o rapaz ainda se sentia confuso em relação à noite anterior. Na manhã desse mesmo dia, o seu colega de quarto (outro jovem adulto também) recebeu a informação de que as visitas que haviam tentado entrar na noite anterior eram para si. O jovem sentia-se desiludido, pois desde que estava no hospital, os seus pais ainda não tinham arranjado tempo para o ir visitar… Mas foi também nesse dia que algo  de inesperado aconteceu. Um homem cego que transportava uma bengala entrou no seu quarto. Era o pai da sua colega de curso. Inicialmente ele pensou que o homem se tivesse enganado no quarto ou andasse perdido, mas a visita era mesmo para ele. A sua colega não vinha com ele e quem o estava a ajudar era a enfermeira. Queria ajudá-lo a chegar até à sua cama, mas depois lembrou-se que não conseguia levantar-se…

– Deves estar a perguntar-te neste momento sobre o que faço eu aqui. – começou por dizer o homem – Mas primeiro, deixa-me que te diga que a minha filha está muito ressentida em relação à forma que lhe mentiste no vosso primeiro dia de aulas.

– Sei que não fui correto. – disse o jovem – Ela não está aqui neste momento, mas quero que o Sr. saiba que me sinto arrependido do ter feito e, por isso, peço-lhe desculpa pela minha atitude.

– Nem preciso de te perguntar o porquê de o teres feito, porque eu sei perfeitamente qual foi o motivo. – prosseguiu o homem – Não precisas de mo dizer! Mas esse não é o motivo que me traz aqui hoje. – o jovem não sabia mesmo o que levava este homem a ir de propósito ao hospital para falar com ele – Um dia eu também fui tal como tu… Um jovem arrogante cheio de sonhos e certezas…

Convicto que já não era bem visto por esta família decidiu pôr um travão nas palavras do homem.

– Deve estar muito contente por me ver nesta situação! – disse o jovem – Deve ser daquelas pessoas que gostam de ver os mentirosos a sofrer e que acredita que eu tive um castigo merecido por nunca mais voltar a andar!

– Só quero que saibas que ainda podes fazer algo útil da tua vida. – continuou o homem – Quando eu era jovem estava a treinar para competir nos jogos olímpicos na categoria de boxe, mas uma lesão nos treinos tirou-me a visão e nunca mais a recuperei.

– No meu caso é diferente. – retorquiu o jovem – Todos dizem que eu me atirei da janela e isso não é verdade!

– Não interessa a forma como chegaste a essa cama de hospital. – disse o homem – Tens de aprender a olhar para o futuro com as tuas limitações e não para os teus erros do passado e a forma como os poderias ter evitado.

– Já lhe disse! – gritou o jovem – Eu não me tentei suicidar!

– Sabes o que decidi fazer da minha vida após o meu acidente jovem? – questionou o homem, mas antes que o jovem pudesse cortar o seu momento prosseguiu – Decidi ajudar pessoas em momentos de necessidade como este e, por isso, tornei-me psicólogo. Ao longo das próximas semanas nós os dois iremos iniciar as tuas sessões de psicoterapia.

O jovem ficou sem palavras. Como poderia isto ser possível? Não fazia sentido na sua cabeça um homem cego e ao mesmo tempo psicólogo. Quereria isso dizer que ainda iria a tempo de se tornar um grande médico como sempre sonhara? Tantas questões por responder.

– Foi um prazer conhecer-te jovem! – disse o homem com boa disposição – Com isto tudo, esqueci-me de te dizer… A minha filha está na sala-de-espera. Ela fez questão de vir comigo para te dar umas palavrinhas também.

Um mundo perfeito – Parte 3

– Doutor, acho que ele está a acordar! – disse uma voz não familiar – O seu braço está a mover-se.

Hospital? Foi o que o jovem pensou de imediato. Ainda há bem pouco tempo estava em casa de férias, sabendo que tinha aprovado em todas as frequências. Certamente estaria a sonhar, porque era impossível estar num hospital. Foi quando finalmente abriu os olhos e viu que uma enfermeira lhe introduzia habilmente mais um cateter no braço, para além dos outros que já tinha colocados.

– Tenha cuidado! – disse o médico – Não se pode mexer!

A verdade é que por muito que tentasse, o jovem não iria a lado algum com tantas coisas ligadas ao seu corpo. Estava consciente, pois sabia que estava numa cama de hospital, porém, dificilmente se conseguia movimentar. Sentia-se confuso e não sabia como tinha ido ali parar. A sua cabeça latejava, os seus braços estavam doridos e as suas pernas… Não conseguia mover as suas pernas!

– O que se passa? – perguntou o jovem muito nervoso – Não consigo mover as pernas!

– Tenha calma! – disse o médico – Qual a última coisa de que se recorda antes de ter vindo para o hospital?

– Eu estava em casa e fui apanhar um pouco de ar à janela. É a última coisa de que me lembro – prosseguiu o jovem – Diga-me doutor! Porque não consigo mexer as pernas?

– O Sr. tentou suicidar-se. – disse o médico tentando parecer calmo – Saltou da varanda do seu segundo andar e, consequentemente, fraturou a sua coluna. Tenho muita pena em informá-lo Sr. de que não irá voltar a andar.

– Isso é impossível Dr.! – gritou o jovem – Eu não me atirei da janela! Não estou louco!

Com toda a agitação, nem reparou que a enfermeira lhe introduzia algo pelo cateter, mas antes que pudesse questionar do que se tratava começou a desvanecer e foi então que percebeu que estava a ser sedado.

A certa altura tudo à sua volta estava escuro. Parecia que era de noite, mas o jovem não o poderia garantir com toda a certeza. Uma luz vinha dos corredores e a certa altura começou a ouvir vozes a conversar vindas do local.

– Estamos fora do horário da visita. – disse uma das vozes – Nem sei como conseguiu passar pela segurança.

– Mas este é o única altura do dia em que o posso vir visitar – retribuiu a outra voz – Por favor! Preciso de vê-lo.

Não sabia se estava acordado ou a sonhar. Lembrava-se que a agitação tomara conta dele, mas não se lembrava bem de quando. Talvez fosse louco e estivesse a ouvir vozes… Foi nestes pensamentos e transições do estado de consciência que tornou a adormecer.

Um mundo perfeito – Parte 2

O último dia de aulas do semestre estava a terminar e hoje era dia de saírem as tão aguardadas notas antes da ida de férias. O semestre tinha corrido extremamente bem ao jovem. Após todas aquelas noites de sono mal dormidas, era finalmente tempo de relaxar um pouco. Mas ainda lhe faltava a última nota de anatomia para poder respirar fundo e entrar nas férias descansado. Teve de esperar até bem ao fim da tarde para que pudesse saber o seu resultado. Passara sem margem para dúvidas, mas não tinha conseguido a melhor nota da turma como já vinha a acontecer nas suas últimas três frequências. Começava mesmo a pensar que algo de errado se passava com ele. Não havia mais nada que pudesse ter feito… Apenas por curiosidade deu uma espreitadela à nota da jovem que tinha encontrado no primeiro dia de aulas. Era de facto impressionante como ela ainda se conseguia manter no curso e ir a todas as aulas. É certo que a sua média não era muito alta. O jovem suponha que ela ainda iria desistir até ao final do curso e, mesmo que aprovasse, que tipo de médica seria com uma média tão baixa? Ela não se encontrava na faculdade de momento. Provavelmente estaria a ajudar o seu pai invisual. Era então hora de o jovem se dirigir a casa. Iria ficar no seu apartamento durante as férias porque não teria ninguém para o receber na casa dos seus pais.

Quando chegou ao seu apartamento sentia-se cansado, com a sua frequência cardíaca muito elevada mesmo para ele que era uma pessoa muito stressada. Decidiu abrir um pouco a janela para arejar a casa. Sentou-se na sua secretária e consultou a sua caixa de correio eletrónico que se encontrava vazia há alguns dias. Sabia que os seus pais eram pessoas muito ocupadas, mas pelo menos podiam enviar-lhe um email de vez em quando. Já nem pedia que fosse uma videochamada. Começava a sentir-se quente apesar de todo o arejamento do quarto. Estava a tornar-se insuportável permanecer sentado e, por isso, levantou-se e começou a deambular pelo apartamento. Uma vez que se sentia abafado, resolveu dirigir-se à varanda para tomar a brisa da noite e essa seria a última coisa que se iria lembrar em algum tempo…

Um mundo perfeito – Parte 1

Era o primeiro de muitos dias do jovem no mundo da saúde. Hoje era o seu primeiro dia na tão aguardada faculdade de medicina. Após todo o seu trabalho, sentia-se plenamente recompensado. Atingira o seu principal objetivo de vida: entrar para a faculdade de medicina. Vinha de um enorme centro urbano e sempre tivera tudo aquilo que desejava. Tinha abandonado a sua família e todos os seus amigos em busca deste objetivo. Não que isso lhe importasse muito, uma vez que o seu pai era um empresário de renome que nunca estava em casa por estar a tratar de negócios e a sua mãe, sendo hospedeira de bordo, encontrava-se sempre em viajem. Viveu sempre rodeado de luxos, na sua casa enorme com piscina, repleta de empregadas domésticas. Sempre tivera as suas coisas em criança e não gostava de brincar com outros, porque não precisava verdadeiramente. Por isso, a solidão sempre estivera presente na sua juventude. Não que isso lhe importasse, porque já estava habituado a que fosse dessa forma. Em todo o caso, agora nada disso importava, porque estava diante do seu objetivo. Sempre ambicionara ser médico desde pequeno. O passado já lá ia para trás e estava na altura de começar a pensar em grande. Não importava a forma como tinha chegado à faculdade de medicina, mas sim todo o futuro brilhante que tinha diante de si.

Estava já a chegar à faculdade, quando viu uma jovem do lado oposto da estrada a preparar-se para ajudar um homem cego a atravessá-la. O jovem permaneceu no local a observar a cena atentamente. Os carros pararam e ambos atravessaram, parando mesmo ao pé do jovem.

– Obrigado por me teres acompanhado até aqui pai. – disse a jovem – A tua presença dá-me mais força para continuar.

– Eu é que te agradeço por me teres ajudado a acompanhar-te até aqui. – disse o homem – Agora é tempo de começares a pensar mais em ti, ao mesmo tempo que pensas nos outros.

A filha despediu-se do seu pai com dois beijos e este entrou para um táxi na berma da estrada. Ela ali permaneceu até ver o táxi partir e desaparecer ao final da rua. O jovem  também ainda ali permanecia a observar toda a cena.

– Peço desculpa, mas pode dizer-me onde fica a faculdade de medicina? – Perguntou a jovem ao futuro médico – É que já estou a ficar atrasada para a minha primeira aula…

O jovem ficou um pouco espantado por ela ser sua colega, mas tentou manter uma postura despretenciosa. Do seu ponto de vista, esta jovem não iria chegar até ao final do curso sendo tão altruísta, mesmo para a sua família, pois nem teria tempo sequer para pegar nos livros com todas as responsabilidades que tinha.

– Não a consigo ajudar… – mentiu o jovem – Estou apenas aqui de férias.

Segundo o jovem, ela não iria aguentar as exigências do curso nestas condições e no meio de tantos futuros médicos, mesmo que estivessem na mesma faculdade, ela nem daria mais pela sua existência.