O amor tem muitas formas

A timidez de um jovem adolescente apaixonado torna-o muitas vezes vulnerável. O jovem não era uma exceção. Sim, ele era o tipo de rapaz que deixava poemas e declarações pirosas nos cacifos das suas paixonetas. Se elas sabiam quem ele era, nunca antes lho haviam dito. No entanto, os seus sorrisos no corredor da escola quando ele passava eram inegáveis e isso, deixava-o de peito cheio. Ele não ia falar com elas e elas também não iam falar com ele por esse motivo. Naquela altura, ele não sabia, mas este método tinha tudo para falhar. Afinal dizer “amo-te” não tem o mesmo impacto que escrevê-lo. Isto acrescido ao facto de os seus textos não estarem assinados tinha tudo para não correr bem. Como poderiam elas saber quem ele era? Talvez algumas até o soubessem, mas isso, ele nunca saberia com toda a certeza. De qualquer forma, as suas paixonetas tinham uma tendência para escolherem os bad boys e, provavelmente nunca iriam reparar nele… Pelo menos era assim que ele pensava, até ao dia em que percebeu que havia alguém mais tímido do que ele. Naquela altura, todos os jovens têm tendência para fazer um drama das coisas e acham-se os melhores ou os piores em tudo, até que descobrem que o mundo é muito mais vasto e complexo do que anteriormente pensavam. Esse era o caso do jovem. Nesse momento, ele ainda não o sabia, mas escrever coisas pirosas e sair de propósito das aulas para as colocar no cacifo das suas paixões adolescentes é talvez um dos maiores atos de rebeldia! Afinal, todas as adolescentes gostam de ter o seu admirador secreto…

A grande festa

O jovem lembrava-se muito bem de como tinha sido a sua primeira saída à noite com os seus amigos. Algo estranho, tendo em conta que a maioria dos adolescentes costumam encontrar no álcool a sua forma de divertimento preferencial quando se vêm afastados dos seus pais. De qualquer forma, ele também não estava lá para se divertir. Fazia parte da organização disfuncional de jovens adolescentes da mesma. O objetivo também era bem típico dos jovens daquela idade: angariar dinheiro para a viajem de finalistas. Todo o panorama era plausível, mas apenas em teoria… O que realmente se viu foi um grupo de adolescentes a trabalharem arduamente na limpeza e montagem do recinto para a realização de uma festa memorável que terminou antes mesmo de ter começado. Quem já foi a algumas, sabe bem como funcionam. No entanto, o jovem passou toda a noite sóbrio, uma fez que ele era o tesoureiro que estava a receber o dinheiro à entrada da festa. Ele apenas foi substituído no seu posto já bem tarde e foi nessa altura que contactou pela primeira vez com estados de embriaguez descomunal. Nessa noite viu de tudo…

Ele simplesmente sorriu para toda aquela panóplia e regressou mais cedo para casa.

No dia seguinte, enquanto arrumava todo o material e limpava o recinto com os seus colegas, ouviu as típicas lamurias do dia anterior: “Eu não me lembro do que fiz na noite passada…”. Também ele teria noites dessas no futuro, mas não naquela altura. No fim, a grande conclusão deu-se com o saldo negativo da festa, mas o que o jovem guardou verdadeiramente de tudo aquilo, foi o trabalho de equipa que envolveu aquela festa e o facto dela ter tornado possível.

O solitário

Durante muito tempo o jovem tinha-se habituado à solidão. O grande problema é que a maior parte das pessoas via a solidão como um inimigo ou algo de que deveriam ter medo. Quando as pessoas não gostam da solidão, têm também uma tendência para não gostarem de pessoas solitárias, como o jovem, apesar de se tratarem de coisas diferentes. Isto era algo muito contraditório para o jovem, pois quando as pessoas estão na presença de um solitário, elas não estão sozinhas. Ele sabia que não gostava de estar sempre sozinho, uma vez que ninguém gosta de estar isolado (nem mesmo um solitário), mas mesmo assim, gostava da companhia da solidão por vezes. Assim, quando alguém falava com o jovem solitário, normalmente era um bom sinal para ele, uma vez que o próprio se deparava com uma ação diferente das ações da maioria das outras pessoas e, por isso, sentia-se feliz.

Certo dia, o jovem foi convidado para participar numa grande festa onde iriam estar todos os seus amigos e colegas, bem como todas as outras pessoas da cidade.

– Vem connosco! – diziam os seus amigos entusiasmados – Vai ser divertido!

– Não sei… – disse o jovem hesitante – Tenho muita coisa para estudar para o teste da próxima semana…

(Todos sabiam realmente que o que ele gostava era de ficar sozinho, mas as pessoas insistiam em convidá-lo na mesma, pois afinal, a solidão não é saudável para ninguém.)

– Vem lá! – insistiram eles – Não vamos ter outra oportunidade tão cedo.

– Está bem – disse por fim o jovem – Mas eu não me venho embora tarde, porque estou também um pouco cansado.

Assim, prosseguiram todos para a festa e, de facto, ela foi memorável. Foi um dos melhores dias da sua vida. O jovem sentiu finalmente uma euforia que não sentia há muito tempo e, rapidamente tomou gosto a estes momentos. Quando deu por si, já estava rodeado de um grande grupo social e todas as pessoas à sua volta o conheciam, mas… Ele acabou por tornar-se uma pessoa infeliz apesar de toda aquela euforia. Não estava sozinho, mas sentia um certo vazio na sua vida. No fundo, ele sabia que já não era mais aquilo que sempre tinha sido: um solitário. Tinha perdido uma parte de si.

 

Um mundo perfeito – Parte 5 (final)

Após meses de psicoterapia intensiva, estava agora na hora do jovem regressar à normalidade. Esta experiência tinha deixado marcas profundas na sua vida e quase arruinara o seu sonho. É certo que o jovem poderia continuar a perseguir o seu desejo de se tornar médico, mas ele sentia que já não seria a mesma coisa. Sentia também que a própria faculdade de medicina já não seria a mesma devido ao seu problema. Receberia olhares pelo canto do olho da parte de todos por verem um futuro médico de cadeira-de-rodas. No fundo, ele sabia que não podia pensar assim e era precisamente isso que se comprometera a trabalhar com o seu psicólogo. Quanto à sua colega, ela dissera-lhe que ficara muito chateada com ele depois daquela mentira do primeiro dia, mas estava disposta a dar-lhe uma segunda oportunidade, porque acreditava que todos o mereciam e, por isso, ele não era exceção. Talvez ainda fossem a tempo de um dia vir a ser amigos. Fora ela que o fora buscar ao hospital no dia em que saiu, pois era a única pessoa disponível para o fazer. Os seus pais apareceram certo dia para o visitar, mas fizeram uma visita tão curta que não deu para matar as saudades, se é que elas alguma vez existiram. Tinha regressado ao seu apartamento, agora equipado com um elevador e uma rampa para todos os dias se poder recordar da sua limitação. O seu ano letivo estava totalmente perdido devido à sua ausência prolongada, mas este acontecimento fizera-o ver as coisas de outra forma. O jovem concluiu que não estava pronto para entender as pessoas, pelo menos por agora e sabia também que não se podia refugiar em casa e, por isso, decidiu sair para o exterior para passear pelo parque.

Era a primeira vez que respirava ar puro em muito tempo e só agora o jovem se apercebia da diversidade de pessoas que frequentavam o local. Estavam crianças a brincar por todo o lado, adolescentes a namorar nos bancos de jardim, adultos a conversar e a ler livros enquanto aguardavam que os seus filhos acabassem a brincadeira e idosos que conversavam sobre as suas experiências de vida e liam o jornal do dia. Enquanto observava as redondezas com seus olhos, foi abordado pela voz inesperada da filha do seu psicólogo:

– Fico feliz por finalmente te ver aqui no exterior. – disse a jovem – Já há um ano que te vi pela primeira vez, mas às vezes parece que não sei nada verdadeiramente sobre ti.

– Talvez… – começou o jovem timidamente – Talvez não haja muito para dizer sobre mim…

– As minhas amigas ali ao fundo não acreditam nisso. – proferiu estas palavras apontando para um grupo de jovens que se encontravam do outro lado da rua na explanada do café – Elas estavam a questionar-se sobre o que faz um jovem tão novo e giro numa cadeira de rodas. Porque não te juntas a nós e nos falas um pouco sobre ti?

A verdade é que o próprio jovem até ao presente dia ainda não sabia explicar como tinha ficado paraplégico, pois não se recordava de ter saltado pela janela. Talvez nunca o chegasse a saber… Mas uma coisa que ele sabia! Tinha de começar a entender as pessoas e, posto isto, encheu-se de confiança e foi falar com elas.

Um mundo perfeito – Parte 4

Quando acordou no dia seguinte, o rapaz ainda se sentia confuso em relação à noite anterior. Na manhã desse mesmo dia, o seu colega de quarto (outro jovem adulto também) recebeu a informação de que as visitas que haviam tentado entrar na noite anterior eram para si. O jovem sentia-se desiludido, pois desde que estava no hospital, os seus pais ainda não tinham arranjado tempo para o ir visitar… Mas foi também nesse dia que algo  de inesperado aconteceu. Um homem cego que transportava uma bengala entrou no seu quarto. Era o pai da sua colega de curso. Inicialmente ele pensou que o homem se tivesse enganado no quarto ou andasse perdido, mas a visita era mesmo para ele. A sua colega não vinha com ele e quem o estava a ajudar era a enfermeira. Queria ajudá-lo a chegar até à sua cama, mas depois lembrou-se que não conseguia levantar-se…

– Deves estar a perguntar-te neste momento sobre o que faço eu aqui. – começou por dizer o homem – Mas primeiro, deixa-me que te diga que a minha filha está muito ressentida em relação à forma que lhe mentiste no vosso primeiro dia de aulas.

– Sei que não fui correto. – disse o jovem – Ela não está aqui neste momento, mas quero que o Sr. saiba que me sinto arrependido do ter feito e, por isso, peço-lhe desculpa pela minha atitude.

– Nem preciso de te perguntar o porquê de o teres feito, porque eu sei perfeitamente qual foi o motivo. – prosseguiu o homem – Não precisas de mo dizer! Mas esse não é o motivo que me traz aqui hoje. – o jovem não sabia mesmo o que levava este homem a ir de propósito ao hospital para falar com ele – Um dia eu também fui tal como tu… Um jovem arrogante cheio de sonhos e certezas…

Convicto que já não era bem visto por esta família decidiu pôr um travão nas palavras do homem.

– Deve estar muito contente por me ver nesta situação! – disse o jovem – Deve ser daquelas pessoas que gostam de ver os mentirosos a sofrer e que acredita que eu tive um castigo merecido por nunca mais voltar a andar!

– Só quero que saibas que ainda podes fazer algo útil da tua vida. – continuou o homem – Quando eu era jovem estava a treinar para competir nos jogos olímpicos na categoria de boxe, mas uma lesão nos treinos tirou-me a visão e nunca mais a recuperei.

– No meu caso é diferente. – retorquiu o jovem – Todos dizem que eu me atirei da janela e isso não é verdade!

– Não interessa a forma como chegaste a essa cama de hospital. – disse o homem – Tens de aprender a olhar para o futuro com as tuas limitações e não para os teus erros do passado e a forma como os poderias ter evitado.

– Já lhe disse! – gritou o jovem – Eu não me tentei suicidar!

– Sabes o que decidi fazer da minha vida após o meu acidente jovem? – questionou o homem, mas antes que o jovem pudesse cortar o seu momento prosseguiu – Decidi ajudar pessoas em momentos de necessidade como este e, por isso, tornei-me psicólogo. Ao longo das próximas semanas nós os dois iremos iniciar as tuas sessões de psicoterapia.

O jovem ficou sem palavras. Como poderia isto ser possível? Não fazia sentido na sua cabeça um homem cego e ao mesmo tempo psicólogo. Quereria isso dizer que ainda iria a tempo de se tornar um grande médico como sempre sonhara? Tantas questões por responder.

– Foi um prazer conhecer-te jovem! – disse o homem com boa disposição – Com isto tudo, esqueci-me de te dizer… A minha filha está na sala-de-espera. Ela fez questão de vir comigo para te dar umas palavrinhas também.

Um mundo perfeito – Parte 3

– Doutor, acho que ele está a acordar! – disse uma voz não familiar – O seu braço está a mover-se.

Hospital? Foi o que o jovem pensou de imediato. Ainda há bem pouco tempo estava em casa de férias, sabendo que tinha aprovado em todas as frequências. Certamente estaria a sonhar, porque era impossível estar num hospital. Foi quando finalmente abriu os olhos e viu que uma enfermeira lhe introduzia habilmente mais um cateter no braço, para além dos outros que já tinha colocados.

– Tenha cuidado! – disse o médico – Não se pode mexer!

A verdade é que por muito que tentasse, o jovem não iria a lado algum com tantas coisas ligadas ao seu corpo. Estava consciente, pois sabia que estava numa cama de hospital, porém, dificilmente se conseguia movimentar. Sentia-se confuso e não sabia como tinha ido ali parar. A sua cabeça latejava, os seus braços estavam doridos e as suas pernas… Não conseguia mover as suas pernas!

– O que se passa? – perguntou o jovem muito nervoso – Não consigo mover as pernas!

– Tenha calma! – disse o médico – Qual a última coisa de que se recorda antes de ter vindo para o hospital?

– Eu estava em casa e fui apanhar um pouco de ar à janela. É a última coisa de que me lembro – prosseguiu o jovem – Diga-me doutor! Porque não consigo mexer as pernas?

– O Sr. tentou suicidar-se. – disse o médico tentando parecer calmo – Saltou da varanda do seu segundo andar e, consequentemente, fraturou a sua coluna. Tenho muita pena em informá-lo Sr. de que não irá voltar a andar.

– Isso é impossível Dr.! – gritou o jovem – Eu não me atirei da janela! Não estou louco!

Com toda a agitação, nem reparou que a enfermeira lhe introduzia algo pelo cateter, mas antes que pudesse questionar do que se tratava começou a desvanecer e foi então que percebeu que estava a ser sedado.

A certa altura tudo à sua volta estava escuro. Parecia que era de noite, mas o jovem não o poderia garantir com toda a certeza. Uma luz vinha dos corredores e a certa altura começou a ouvir vozes a conversar vindas do local.

– Estamos fora do horário da visita. – disse uma das vozes – Nem sei como conseguiu passar pela segurança.

– Mas este é o única altura do dia em que o posso vir visitar – retribuiu a outra voz – Por favor! Preciso de vê-lo.

Não sabia se estava acordado ou a sonhar. Lembrava-se que a agitação tomara conta dele, mas não se lembrava bem de quando. Talvez fosse louco e estivesse a ouvir vozes… Foi nestes pensamentos e transições do estado de consciência que tornou a adormecer.

Um mundo perfeito – Parte 2

O último dia de aulas do semestre estava a terminar e hoje era dia de saírem as tão aguardadas notas antes da ida de férias. O semestre tinha corrido extremamente bem ao jovem. Após todas aquelas noites de sono mal dormidas, era finalmente tempo de relaxar um pouco. Mas ainda lhe faltava a última nota de anatomia para poder respirar fundo e entrar nas férias descansado. Teve de esperar até bem ao fim da tarde para que pudesse saber o seu resultado. Passara sem margem para dúvidas, mas não tinha conseguido a melhor nota da turma como já vinha a acontecer nas suas últimas três frequências. Começava mesmo a pensar que algo de errado se passava com ele. Não havia mais nada que pudesse ter feito… Apenas por curiosidade deu uma espreitadela à nota da jovem que tinha encontrado no primeiro dia de aulas. Era de facto impressionante como ela ainda se conseguia manter no curso e ir a todas as aulas. É certo que a sua média não era muito alta. O jovem suponha que ela ainda iria desistir até ao final do curso e, mesmo que aprovasse, que tipo de médica seria com uma média tão baixa? Ela não se encontrava na faculdade de momento. Provavelmente estaria a ajudar o seu pai invisual. Era então hora de o jovem se dirigir a casa. Iria ficar no seu apartamento durante as férias porque não teria ninguém para o receber na casa dos seus pais.

Quando chegou ao seu apartamento sentia-se cansado, com a sua frequência cardíaca muito elevada mesmo para ele que era uma pessoa muito stressada. Decidiu abrir um pouco a janela para arejar a casa. Sentou-se na sua secretária e consultou a sua caixa de correio eletrónico que se encontrava vazia há alguns dias. Sabia que os seus pais eram pessoas muito ocupadas, mas pelo menos podiam enviar-lhe um email de vez em quando. Já nem pedia que fosse uma videochamada. Começava a sentir-se quente apesar de todo o arejamento do quarto. Estava a tornar-se insuportável permanecer sentado e, por isso, levantou-se e começou a deambular pelo apartamento. Uma vez que se sentia abafado, resolveu dirigir-se à varanda para tomar a brisa da noite e essa seria a última coisa que se iria lembrar em algum tempo…

Um mundo perfeito – Parte 1

Era o primeiro de muitos dias do jovem no mundo da saúde. Hoje era o seu primeiro dia na tão aguardada faculdade de medicina. Após todo o seu trabalho, sentia-se plenamente recompensado. Atingira o seu principal objetivo de vida: entrar para a faculdade de medicina. Vinha de um enorme centro urbano e sempre tivera tudo aquilo que desejava. Tinha abandonado a sua família e todos os seus amigos em busca deste objetivo. Não que isso lhe importasse muito, uma vez que o seu pai era um empresário de renome que nunca estava em casa por estar a tratar de negócios e a sua mãe, sendo hospedeira de bordo, encontrava-se sempre em viajem. Viveu sempre rodeado de luxos, na sua casa enorme com piscina, repleta de empregadas domésticas. Sempre tivera as suas coisas em criança e não gostava de brincar com outros, porque não precisava verdadeiramente. Por isso, a solidão sempre estivera presente na sua juventude. Não que isso lhe importasse, porque já estava habituado a que fosse dessa forma. Em todo o caso, agora nada disso importava, porque estava diante do seu objetivo. Sempre ambicionara ser médico desde pequeno. O passado já lá ia para trás e estava na altura de começar a pensar em grande. Não importava a forma como tinha chegado à faculdade de medicina, mas sim todo o futuro brilhante que tinha diante de si.

Estava já a chegar à faculdade, quando viu uma jovem do lado oposto da estrada a preparar-se para ajudar um homem cego a atravessá-la. O jovem permaneceu no local a observar a cena atentamente. Os carros pararam e ambos atravessaram, parando mesmo ao pé do jovem.

– Obrigado por me teres acompanhado até aqui pai. – disse a jovem – A tua presença dá-me mais força para continuar.

– Eu é que te agradeço por me teres ajudado a acompanhar-te até aqui. – disse o homem – Agora é tempo de começares a pensar mais em ti, ao mesmo tempo que pensas nos outros.

A filha despediu-se do seu pai com dois beijos e este entrou para um táxi na berma da estrada. Ela ali permaneceu até ver o táxi partir e desaparecer ao final da rua. O jovem  também ainda ali permanecia a observar toda a cena.

– Peço desculpa, mas pode dizer-me onde fica a faculdade de medicina? – Perguntou a jovem ao futuro médico – É que já estou a ficar atrasada para a minha primeira aula…

O jovem ficou um pouco espantado por ela ser sua colega, mas tentou manter uma postura despretenciosa. Do seu ponto de vista, esta jovem não iria chegar até ao final do curso sendo tão altruísta, mesmo para a sua família, pois nem teria tempo sequer para pegar nos livros com todas as responsabilidades que tinha.

– Não a consigo ajudar… – mentiu o jovem – Estou apenas aqui de férias.

Segundo o jovem, ela não iria aguentar as exigências do curso nestas condições e no meio de tantos futuros médicos, mesmo que estivessem na mesma faculdade, ela nem daria mais pela sua existência.

A rapariga misteriosa – Parte 5 (final)

Já se havia passado um mês desde que a rapariga misteriosa se tinha mudado e o rapaz nunca conseguiu ter oportunidade de a conhecer melhor. Até ao presente dia ainda não sabia o porquê de tanto fascínio. Continuava todos os dias a passar por aquele café onde a tinha visto pela primeira vez, na esperança de a voltar a ver mais algum dia. Tal ainda não tinha acontecido. Estava agora na altura de se preparar para mais um teste de matemática e sabia que se tinha de focar para recuperar a sua nota e ainda ter esperanças em conseguir uma média razoável no final do ano. Começou por insistir em ficar em casa para se poder concentrar no estudo, mas prontamente viu que em nada isso o ajudava e, por isso, dirigiu-se mais uma vez ao café. Pediu o lanche e deu início à sua longa tarde de estudo. Não conseguia conter-se em olhar para a mesa do fundo onde a tinha visto pela primeira vez. Se tivesse sabido que ela se ia embora, talvez as coisas tivessem sido diferentes…

O café começava agora a encher, mas a mesa do fundo permanecia vazia. O seu lanche tardava em chegar e, como se isso não bastasse, também já não conseguia estudar em lado nenhum. Quando a comida chegou, alimentou-se rapidamente para se dirigir a casa. Preparava-se para levantar quando a viu novamente! Lá estava ela outra vez: a rapariga misteriosa!. No entanto, este encontro não correu como o esperado, pois ela percorreu todo o café, sentando-se novamente na mesa do fundo, sem lhe dirigir uma única palavra. O rapaz, frustrado levantou-se e dirigiu-se à mesa da rapariga.

– Esperei um mês pelo teu regresso e agora que chegaste não me dizes nada? – perguntou o rapaz tentando manter uma voz calma. – Não tive qualquer notícia tua!

A rapariga fitou-o, com surpresa e disse:

– Não sei do que falas… Se bem me lembro foste tu que fugiste da primeira vez que nos vimos.

O rapaz ficou confuso. Como era possível tudo isto depois de terem sido colegas de carteira na escola. Era impossível ela não se lembrar. Até lhe tinha deixado uma nota escrita no caderno.

– Vais mesmo fingir que não te lembras de todas as aulas em que estávamos sentados ao pé um do outro durante aquelas semanas? – perguntou o rapaz com uma voz irritada – Não acredito nisto…

A rapariga ficou estática e sorriu apenas. Apesar de ter durado apenas um segundo, aquele momento pareceu uma verdadeira eternidade para ambos. Antes que o rapaz pudesse fazer mais uma pergunta, a rapariga fez um gesto para o mandar calar e disse:

– Tem calma, senta-te e vamos tomar um café! Não precisas de te preocupar mais. Finalmente vou ter o prazer de conhecer o rapaz misterioso de que a minha irmã tanto me falava.

A rapariga misteriosa – Parte 4

Finalmente tinha passado aquele teste de matemática e diga-se de passagem que não foi das melhores prestações do rapaz. Era já fim-de-semana e a inquietação dos últimos dias ainda não tinha passado. Não pelo teste que tinha corrido mal, mas sim pelo facto de a sua colega de carteira ter faltado a esse mesmo teste e não ter aparecido nas aulas durante toda a restante semana. Não sabia o porquê de aquela rapariga o ter fascinado desde aquele primeiro encontro no café, mas a verdade é que nunca tinha deixado de pensar nela desde então. A sua presença deixara-lhe sempre inquietação e nunca sabia muito bem como iniciar uma conversa com a rapariga. Começava a pensar que ela talvez tivesse deixado de ir às aulas por causa da sua discussão no outro dia no centro de saúde. No fundo ele sabia que isso não fazia sentido nenhum, mas são aquelas suposições parvas que todos os adolescentes fazem. Tinham-se passado duas semanas desde que se conheceram e ele ainda não sabia nada sobre ela. Estava na altura de a conhecer melhor, mas ela tinha desaparecido simplesmente. Decidiu que no dia seguinte iria falar com o professor para saber se ele sabia algo sobre esta ausência prolongada.

Chegou a segunda-feira e o rapaz dirigiu-se ao gabinete do professor. Após perguntar pelas notas do teste (uma típica desculpa, para iniciar a pergunta importante), o rapaz questionou-o:

– Sabe alguma coisa sobre a ausência prolongada da minha colega? Ela está doente?

– Fica descansado, porque está tudo bem com ela. Mas se quiseres mais informações terás de lhe perguntar diretamente. – disse o professor – Ela disse-me que provavelmente chegaria o dia em que me perguntarias por ela. Parece que acertou…

– Obrigado professor. – respondeu o rapaz – fico descansado em saber que está tudo bem com ela.

– Já agora! Aviso-o que o seu teste não me parece muito famoso. – advertiu o professor – Não sei o que anda pela sua cabeça.

– Prometo que me empenharei mais para a próxima professor. – disse o rapaz – Este teste foi a exceção à regra.

Assim saiu o rapaz do gabinete, cada vez mais a pensar que ele poderia ser o culpado desta ausência. Dirigiu-se a casa frustrado após o longo dia de aulas. Sentia necessidade de falar com a rapariga, mas nem o seu contacto teve coragem de pedir nestas semanas. Com o nervosismo até se esqueceu de perguntar ao professor se ela voltaria. Poderia nunca mais a voltar a ver… No fundo, não havia mais nada que pudesse fazer, por isso, refugiou-se nos trabalhos de casa.

Ao virar a página do seu caderno fez então uma descoberta. Estava um texto escrito no verso da folha.

“Sabia que eventualmente chegarias a esta página. Desculpa não te ter dito nada antes, mas a verdade é que não tive coragem para o fazer. A minha mãe arranjou emprego na Suiça e eu fui morar com ela para lá. Gostava de ter podido conviver mais tempo contigo e talvez a nosso história tivesse sido diferente. Continuarei a vir a Portugal nas férias, por isso talvez nos possamos cruzar novamente algum dia. Desejo-te tudo de bom. Beijinhos”

A oportunidade do rapaz conhecer melhor a rapariga misteriosa tinha passado e agora não saberia se a voltaria a ver algum dia. Nem o facto de saber que a sua ausência nada tinha a ver com ele o consolava. Rasgou a folha do caderno e amarrotou-a com violência, atirando-a para o lixo. Afinal de contas ele nem era dado a muitos afetos.